05/01/2016

Cris Komesu | Mesa Brasil

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Beleza não se põe à mesa

Pepino em forma de bengala, banana gêmea, cenoura com duas pernas... Você já viu um alimento assim na gôndola do mercado? Escolheria um deles para por no seu carrinho de compras?

As frutas e legumes feios, ou fora do padrão, muitas vezes são rejeitados pelos consumidores e acabam sobrando, esquecidos no fundo da banca. Resultado: são descartados e vão somar ao triste ciclo do desperdício de alimentos. E sem motivo algum, afinal a aparência diferente de um alimento não significa menor qualidade – nem em sabor, nem em nutrição.

Sabendo dessa “exigência estética”, alguns produtores descartam os alimentos que estão fora do padrão antes mesmo de chegarem aos pontos de venda. De acordo com pesquisa da revista Hortifruti Brasil, produzida pela Esalq/USP,  alguns dos legumes e frutas feios são destinados a restaurantes/lanchonetes, a mercados populares, à indústria (para a produção de molhos e sucos, por exemplo) ou à doação (diretamente para instituições ou para programas como o Mesa Brasil), mas nem sempre há uma destinação formal para esses alimentos. É possível acessar os dados completos da pesquisa na revista online aqui.

Fuja do Padrão!

Essa foi a proposta de uma das atividades realizadas pelo Mesa Brasil do Sesc Interlagos durante a programação do Dia Mundial da Alimentação 2015. Expostos na banca, os vegetais nos mais diferentes formatos chamavam a atenção: um abacaxi com três coroas, o chuchu em forma de coração, a manga em meia lua. A intenção foi conscientizar o público de que frutas e legumes em formatos e tamanhos fora do padrão podem se transformar em refeições deliciosas, mostrando que beleza não se põe à mesa.

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O consumo de alimentos fora do padrão, assim como o aproveitamento integral – da semente à casca -, está entre as ações incentivadas pelo Mesa Brasil como formas de reduzir o desperdício dentro de casa e também nas instituições sociais que beneficia.

Gente bonita come fruta feia

Em Portugal, uma iniciativa criada em 2013 tem dado bons resultados ao oferecer um meio de unir produtores locais e consumidores, estimulando a mudança nos padrões de consumo: a cooperativa Fruta Feia. Com o lema “Gente bonita come fruta feia”, a iniciativa recolhe a produção agrícola que antes seria desperdiçada e disponibiliza frutas e legumes em kits semanais para consumidores cadastrados previamente, a preços mais baixos que o de mercado. A Fruta Feia conta com 800 consumidores associados e evita semanalmente cerca de 4 toneladas de desperdício.

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Em outros países, incluindo o Brasil, há supermercados que oferecem alimentos fora do padrão a preços mais baixos. É o caso do Intermarché, na França, e o Atacadão, do grupo Carrefour, no Brasil, com o projeto “Sans Form”. Há também exemplos de movimentos mais radicais, como o Freeganismo, um estilo de vida que propõe o boicote ao consumismo e inclui o garimpo urbano, aproveitando o que é descartado no lixo, ocupando espaços abandonados etc.

Uma conta que não fecha

Cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado, de acordo com estimativas da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), um montante que chega a 1,3 bilhão de toneladas. A exigência de um “padrão de beleza” dos alimentos é apenas um dos diversos fatores que levam ao desperdício. As perdas e desperdícios acontecem ao longo de toda a cadeia produtiva, devido a condições inadequadas de transporte, processamento, armazenamento, comercialização, até chegar ao consumo. Ao jogar um alimento no lixo, portanto, estamos jogando não só ele, mas também todos os recursos, água e energia (elétrica, combustível) gastos desde que ele foi colhido até a porta da nossa casa. Enxergar a beleza nos alimentos feios é um passo pequeno, mas importante para reduzirmos a conta do desperdício e refletirmos sobre alimentação, consumo e as consequências para o planeta.

 

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