18/11/2014

Mesa Brasil

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Segurança Alimentar e Nutricional e seus Dilemas Contemporâneos

Confira como foi a conferência de abertura do Seminário Internacional Alimentação Hoje - Entre Carências e Excessos , com Alan Bojanic e Renato Maluf, no Sesc Belenzinho

O teatro do Sesc Belenzinho estava cheio, parecendo estreia de espetáculo grande, daqueles que esgotam no dia em que as vendas abrem. Porém, desta vez, todos os presentes utilizavam aquele costumeiro crachá de identificação que tem o dom de causar, ao mesmo tempo, estranhamento em quem o veste e proximidade naquele que lê.  Seminários são assim: aproximam interessados numa prática, num tema, e devem causar estranhamento do novo, do contato com conhecimento que você ainda não tem, da aproximação de um tema complexo ao cotidiano das pessoas.

Ainda havia uma ocasião que tornava esse encontro mais especial: os 20 anos do Programa Mesa Brasil. Criado inicialmente em São Paulo, já arrecadou 47 milhões de toneladas de alimentos e hoje atua em todo o país. “O Mesa Brasil dá forma à vocação educativa do Sesc e do seu compromisso com a prática e a discussão da alimentação no país”, disse Danilo Santos de Miranda, diretor Regional do Sesc São Paulo, ao abrir o Seminário Internacional Alimentação Hoje – Entre Carências e Excessos. Na sua fala, também houve espaço para apontar que a fome não é o único problema a ser enfrentado: a má alimentação e a “insustentabilidade” da cadeia produtiva também são tópicos críticos.

Os três tópicos, por sinal, deram o pontapé inicial no seminário com conferência “Segurança Alimentar e Nutricional e seus dilemas contemporâneos” com Alan Bojanic, representante da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) no Brasil e Renato Maluf, professor da UFRRJ, onde coordena o centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional.

A fala de ambos mirou na experiência brasileira da redução da fome. “O mundo inteiro olha para o Brasil quando o assunto é Segurança Alimentar e Nutricional”, disse Bojanic. O representante da FAO apresentou dados curiosos e estarrecedores: de 1990 a 2014, a subalimentação caiu no mundo, todavia subiu na África, enquanto, no mesmo período, verificou-se que um terço da produção mundial de alimentos é desperdiçada. Contrastante com essa situação, a América Latina apresenta queda significativa nos mesmos índices, sendo exemplo de compromisso em nível regional, sub-regional e nacional, puxada pelo Brasil e as iniciativas de abrangência nacional, como foi o Fome Zero, e ainda são, vide Bolsa Família, o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o fortalecimento da Agricultura Familiar.

Apontando uma visão mais crítica e contundente, Renato Maluf expandiu o escopo programático apresentado pelo colega, revisando os acontecimentos que fizeram da experiência brasileira com a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) um case para o mundo. Para ele, a participação da sociedade civil organizada na construção de uma política nacional de segurança alimentar e nutricional, é um dos marcos da experiência brasileira. “Recebi um colega estrangeiro – não vou falar o país pra não ficar chato – que ficou surpreso. Me disse ‘rapaz, no meu país eu já vi ministro dialogar com as entidades organizadas da sociedade civil. Agora, responder seus questionamentos, ainda não vi, não!’”.

Das críticas, a necessidade de se enfrentar o que chamou de setorialização das políticas públicas a despeito de um esforço conjunto nas ações estruturantes ganhou um pequeno adendo cômico. “Não tem lá muito cabimento ficar argumentando se esse ‘pobre’ é daqui ou dali” – ao que o teatro riu aquela risada nervosa, incomodada com o surreal das coisas. Lembrou também que, desde os anos 80, passando pelos 90 e seus ecos neoliberais na política nacional, o Brasil, grande produtor e exportador de alimentos, não possui um enfoque soberano de abastecimento alimentar – é muito mais fácil e barato comer mal, com o que caminhamos bem para nos tornarmos uma nação de obesos.

Também não passou batido o fato de o Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. “Os grandes produtores agrícolas dizem que têm a solução para fome no mundo. Claro que têm! Mas trata-se de um modelo que compromete o consumo e a natureza! Não há dúvidas de que é necessário aumentar a produção de alimentos no mundo, porém, utilizando o modelo produtivista vigente, o planeta não aguenta!”.

Atentando a isso, relembrou Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”, em seu pioneirismo ao cunhar que “o alimento é o principal elo entre o ser humano e o ambiente em que vive”. Não se trata mais ou, não se tratou nunca, de separar natureza e tecnologia, mas sim, conviver com o bioma, como no caso das ações da ASA (Articulação pelo Semi-Árido) responsável pela instalação de 1 milhão de cisternas rurais no semi-árido, dando condições às famílias de conviverem com a pior seca dos últimos 80 anos na região que abrange quase a totalidade dos estados do Nordeste.

Maluf foi enfático ao dizer que não existe uma solução. Tudo passa pelo entendimento plural e complexo da cultura e das práticas de cada povo. Evitou falar em “agricultura familiar” no singular, apontando que aí também residem pontos para discussão – a agroecologia, agregando conhecimentos de diferentes práticas (técnicas e culturais) poderia responder melhor às demandas do planeta e do homem. “Tem lá um pedaço de terra, e só uma família ali. É agricultura familiar, e eles estão plantando soja ali! A situação atual do planeta é muito mais complexa”.

Ao final, aproveitou para mandar um recado às posturas que qualificou de críticas puramente ideológicas, como “não se dá o peixe, é preciso ensinar a pescar”. “Se um pobre que não tem condições de ter seu alimento, não come, morre. Em toda a sociedade desigual, instrumentos de proteção aos direitos fundamentais, como o direito ao alimento, garantido na constituição, são instrumentos estruturantes. Eu aposto – e ganho – que o número de sonegadores de impostos dentro dos 10% mais ricos do país é maior que o de pessoas que falsificam as condições de receber o Bolsa Família”.

 

 

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