01/11/2014

Mesa Brasil

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Discussões na mesa!

Entre os dias 28 e 30/10, o Sesc Belenzinho recebeu o seminário ‘Alimentação Hoje – Entre Carências e Excessos’. A tarde do dia 28/10 começou com a palestra de José Esquinas Alcázar, ‘Desafios e novas perspectivas para a soberania alimentar’, seguida do debate “Alimento e Ciência – Demadas Sociais e Limites Éticos”

Um senhor com a voz rouca e possante fez a sua fala sem a ajuda de slides, incumbindo-se da função de, no discurso, arrematar a atenção dos presentes – pós almoço, uma tarefa demasiado difícil, convenhamos.

Para além das dificuldades fisiológicas, havia ainda o problema do idioma: José Esquinas Alcázar é espanhol e, por onde olhasse no teatro do Sesc Belenzinho, via uma multidão atenta, firme no fone de ouvido. A figura de Alcázar era dotada de um magnetismo tal que, ao final de sua fala sobre “Desafios e novas perspectivas para a soberania alimentar”, o público aplaudiu de pé.

Não era por menos. Aquele senhor de fala severa mandou uma anedota que lhe foi contada quando pequeno para ilustrar como vê o mundo hoje. “Um comissário de bordo transfere um recado aos passageiros de um avião: – Caros, o piloto está inconsciente, mas não se preocupem! A aeronave está numa velocidade excelente!“. O público riu, mas foi severamente repreendido com a emenda de Alcázar, “Velocidade pra onde? Pra quê?”.

Num mundo em que se especula com os preços dos alimentos até o último instante perecível, as coisas parecem estar um bocado erradas. Como no caso do Benim, país da parte ocidental da África, cuja produção agrícola era focada na subsistência até que a cultura do algodão entrou no país municiada pelos ditames do mercado internacional. Pequenos produtores venderam suas terras e começaram a trabalhar em grandes fazendas de algodão. Começaram a ganhar melhor, porém em 2012, com a crise de preços dos alimentos, esses pequenos produtores se viram gastando 80% do seu salário em comida! Benim perdia assim não só a soberania alimentar. Tinha, enfim, a soberania nacional subjugada.

É estarrecedor pensar que o ser humano plantava 8 mil cultivos distintos sobre a terra e, hoje, são apenas 100. O trigo, a batata, o arroz e a soja contribuem com 65% da produção total – abdicou-se de outros cultivos em nome de um mercado crescente que tolhe os nutrientes do solo e sua produtividade.

“Ninguém está disposto a investir na diversificação de culturas, ninguém está disposto a investir para dar de comer aos pobres. A especulação com os preços dos alimentos é um crime contra a humanidade cometido sistematicamente desde 2008 – é necessário regulação! Sobre o mercado, sobre o direito à alimentação – não pode ser voluntário! Deve ser obrigatório.“

Depois de mandar essa paulada, José Esquinas Alcázar terminou retomando a fala sobre os rumos da humanidade. “É necessário pensar a partir de um trinômio: Recursos Naturais – Tecnologia – Ética. Existe a necessidade de democratizar os processos agrícolas. Estão a serviço de quem (ou de quê), os recursos naturais, a tecnologia e a ética? É preciso uma governança mundial que mire no desenvolvimento daquilo que está na declaração universal dos direitos humanos – direito ao alimentos incluso!”

E finalizou, para o aplauso da plateia, com um chamado sobre o consumo. “O poder dos consumidores é enorme. Vivemos numa sociedade voltada para o consumo! Consumir é um ato político. Se todos os consumidores se unirem, seu poder seria mais forte que os partidos políticos. Se 5 ou 6 pessoas pensam que uma utopia é possível, deixa de ser uma utopia, torna-se uma possibilidade.”

Mais tarde, o debate “Alimento e Ciência – Demadas Sociais e Limites Éticos”, reuniu Jeffrey M. Smith, Diretor executivo do Institute of Responsible Technology, Julicristie M. de Oliveira, Professora da Faculdade de Ciências Aplicadas na Unicamp e Lourdes Maria Corrêa Cabral, Chefe Geral da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

A ordem do dia colocava os OGMs – organismos geneticamente modificados – em pauta. A fala de Jeffrey Smith evidenciava quão potente é a indústria alimentícia e seus lobbys por conseguirem comercializar alimentos geneticamente modificados, bem como evitar a rotulação devida, alertando a população sobre o conteúdo dos alimentos processados, principais fontes de OGMs no mercado.

Para se ter uma ideia, os OGMs foram expulsos da Europa por conta de pressão de mercado, quando a população alertada sobre os problemas desse tipo de alimento deixou de comprá-los – a Comissão Europeia de Alimentação se absteve de vetar alimentos com OGMs. E, a lista de problemas advindos do consumo de geneticamente modificados é extensa: de doenças vasculares, gástricas, Alzheimer, diabetes, até câncer no fígado, nos rins e leucemia.

Julicristie apontou que o cenário brasileiro demanda atenção, uma vez que a comissão técnica de biossegurança tem aprovado sistematicamente todas as demandas do mercado de transgênicos. Trata-se, para ela, de politizar o debate sobre o alimento, visto que o agronegócio não é voltado para soberania alimentar, mas sim para a venda de commodities para o mercado externo.

Como a ANVISA é apenas um órgão regulamentador, é preciso pressão popular no sentido de haver políticas públicas que informem o consumidor de que ele está consumindo transgênicos. A professora foi enfática ao dizer que o argumento de aumento da produção e saciedade da fome, provenientes dos campos da alimentação e nutrição, é falso.

Lourdes Corrêa problematizou o uso da tecnologia como instrumento para ampliar a discussão em torno do alimento e da cadeia de valor construída no seu entorno. Para ela, ainda não possuímos conhecimento suficiente para produção de alimentos orgânicos no Brasil em larga escala. “De que adianta produzir orgânicos e colocar numa caixa de poliuretano que vai demorar 150 anos pra ser degradada pelo meio ambiente. É papel da Embrapa pesquisar formas de fazer isso acontecer”.